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“Eu planto laranja, macaxeira, feijão. Quando não tenho, o vizinho de terra sempre ajuda”

Por 22 de julho de 2019 julho 30th, 2019 1 comentário

 

Quem passa às quartas-feiras nas barracas de orgânicos ao lado do antigo Restaurante Universitário da UFAL (Campus Maceió) ou aos domingos na praça do Centenário (Farol), não imagina a trajetória daqueles produtores da agricultura familiar. Maria Lucilene dos Santos, 56 anos, é uma das 23 integrantes da Associação das Produtoras Agroecológicas da Zona da Mata Alagoana (Aproagro). “Eu tive a ideia de começar a associação porque o machismo era muito forte no assentamento. As mulheres não tinham acesso a linha de frente e eu sempre fui aquela ‘adiantadinha’. Fui com a cara e com a coragem até conquistar essa liberdade que temos hoje. E olhe que muita gente chamou meu marido de corno simplesmente porque eu saía de casa para tentar ganhar dinheiro”, compartilha.

Lucilene cresceu e fez a vida na cidade de União dos Palmares. Saiu do sítio Barro Vermelho e foi para a cidade. Lá, estudou até a 8ª série e conheceu o marido com quem se casou aos 18 anos. Ele trabalhava em uma usina da região com carteira assinada e ela como professora. “Eu dava aula para as primeiras e segundas séries. Naquela época a gente podia dar aula, mas no fundo eu nunca tinha me adaptado aquela vida na cidade. Eu pensava mesmo em ter uma terra porque me sentia muito humilhada. Não davam valor para o professor, atrasavam os salários e a gente passava sufoco”, afirma.

Para a produtora, quem nasceu no campo não consegue se acostumar a viver na cidade. Com salários atrasados há oito meses, ela conseguiu convencer o marido a ir para um acampamento, com seus seis filhos, no sítio Cabeça de Porco, no município de Branquinha, vizinho a União. Fizeram uma cabana e desde 1996 a família não saiu mais do campo. Já são 23 anos sobrevivendo da agricultura familiar. “Hoje eu tenho laranja, banana, graviola, acerola, caju, manga, alface, cebolinha, cenoura, batata, macaxeira, feijão, milho…E mesmo quando eu não tenho, eu pego do vizinho. A gente ajuda um ao outro. Tenho até as galinhas para comer e tirar os ovos”.

Atualmente ela mora com o marido e mais dois filhos, um adotado. “Eles ficam mais na roça e eu fico com a responsabilidade de colher os produtos e cuidar do meu filho autista. Eu não pego mais tanto na enxada como antes até por causa da idade. O problema é que a juventude não quer continuar. Estou preocupada sobre como vai ser no futuro”, afirma Lucilene. A renda da família, em média, gira em torno de R$ 1.000 a R$ 1.200, valor que é dividido entre todos.

Do assentamento para os pratos dos alagoanos

Com a garantia dos alimentos para a subsistência da família, era preciso vender o restante para conquistar a renda e a consequente independência. Lucilene articulou as mulheres do assentamento (Movimento Mulher Camponesa) e foram em busca de realizar uma primeira feira de orgânicos, ainda em 2006. Articularam um espaço com a prefeitura de Messias e começaram a comercialização. De lá para cá, não pararam mais. Conquistaram apoios institucionais, como a UFAL e o banco Santander. Os professores desenvolveram diferentes projetos e com recursos externos conseguiram até ajudar na aquisição de bomba d’água para irrigar a plantação.

O grande desafio, segundo Lucilene, é conseguir boas sementes para continuar a produção. “A luta grande é para conseguir semente crioula. As sementes que chegam do governo não são boas e muitas vezes elas são entregues depois que já passou a fase do plantio”, lamenta a produtora. Para ela, a presença de técnicos no campo poderia melhorar a produção do assentamento, bem como organizar uma destinação correta para o lixo. “A gente está queimando, mas muito do lixo poderia ser transformado em adubo, em compostagem”.

A conquista do grupo foi a aquisição de um caminhão fornecido pela Secretaria de Agricultura de Alagoas. “Deram o caminhão, mas nós que fazemos a gestão. A gente contrata um motorista e ele traz a gente nos dias de feira para Maceió”. Segundo Lucilene, as feiras garantem a renda e são os maiores apoios do grupo: “Na UFAL o movimento é menor, mas na Centenário a gente vende muito bem. E temos também um grupo de compra de Riacho Doce que de 15 em 15 dias pede os produtos pelo WhatsApp e a gente vai lá entregar. Tem uma pessoa que junta todos os pedidos e passa a demanda para a gente. Eu não sabia mexer nesse bregueço (celular), mas tive que aprender com os filhos”.

Produtos sem agrotóxicos, mas como provar para o cliente?

Lucilene é categórica quando afirma que plantar sem veneno é extremamente difícil, inclusive junto a outros produtores. Ela conta que sofreu ameaças de colegas produtores que queriam colocar outros tipos de produtos nas feiras. “Teve até reunião que tinha gente armada e me enfrentando ‘quero ver quem vai me impedir de vender’”. E não à toa, os produtos da Aproagro são todos com certificação orgânica. Os técnicos da Seagri visitaram o assentamento, analisaram as produções, orientaram e capacitaram todos os produtores. E há cerca de 7 anos atrás, o grupo foi cadastrado como uma Organização de Controle Social (OCS) que possibilita ao agricultor familiar comercializar seus produtos diretamente ao consumidor (venda direta) e também em participar de programas governamentais como o Programa Nacional de Alimentação Escolas (PNAE) e Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) como venda institucional.

Em 2018, uma iniciativa da associação quis dar ainda transparência na qualidade dos produtos e melhorar a relação com os consumidores. Depois de uma capacitação e do estabelecimento de um regimento interno, o grupo de mulheres organizou uma visita ao assentamento. “A gente queria levar o povo para conhecer e confiar nos nossos produtos. Pegamos um feriado e cobramos uma taxa de R$ 20,00 para ajudar nas despesas. Fizemos uma acolhida com café da manhã, uma apresentação mostrando as fases do plantio e colheita, visitamos os lotes, fizemos três rodas de conversa e ainda encerramos com um sanfoneiro tocando embaixo de pé de árvores”, relembra. Segundo Lucilene, todo mundo gostou e a ideia é fazer mais movimentações como essa.

“A decisão é coletiva, mas a linha de frente é nossa”

Para esse grupo de agricultores, demanda não falta. Eles recebem pedidos de supermercados, diretamente de outras pessoas, mas dizem que não é possível aumentar a produção. “Hoje são poucos que querem trabalhar na terra. Se a gente assumir uma produção, ‘querer crescer as pernas’, a gente pode errar porque não tem quem continue. Eu mesma fico me dividindo entre ajudar na roça e participar das feiras. Se eu ficasse só em feiras não iríamos ter todos os produtos porque ia faltar esse apoio na roça.” A produtora afirma que todo seu envolvimento foi uma libertação e uma nova forma de organizar sua família. Para Lucilene, o conceito de agroecologia em sua realidade vai além da diversidade dos produtos e envolve a decisão coletiva em sua casa, porque sozinha “nada funciona”. Na associação o funcionamento é o mesmo. Os homens são super bem vindos, mas a linha de frente é das mulheres. “Tudo começou com a nossa mobilização. As mulheres têm o direito de se libertar e conhecer o mundo. E é assim que quero continuar a vida: plantando, vendendo nas feiras e conversando com as pessoas”, finaliza.

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