Lugar do Cidadão

“Eu preferia que ele fosse para a feira, mas tenho que dizer que ele não pode”

Por 28 de maio de 2019 junho 6th, 2019 Sem comentários

I.S.S, 13 anos, gostava de trabalhar na feira livre de São José da Tapera, distante 218 km de Maceió. Aos sábados ele costumava ‘carroçar’ das 5h30 às 11h da manhã. “Era bom porque eu comprava as coisas que eu queria, tinha o meu dinheiro. Conseguia de R$ 35,00 a R$ 40,00 por dia de feira”, desabafa o adolescente.

Ele começou a ‘carroçar’ – ato de levar em uma carroça as compras dos clientes da feira até suas residências – de tanto acompanhar a mãe durante a feira. Segundo I.S.S, o motivo que o levou foi a vontade de ter seu próprio dinheiro, já que a mãe não tinha condições suficientes de dar dinheiro para além de garantir o sustento básico dos filhos. A ‘carroça’ foi dada pela avó e I.S.S não via problema, muito menos reclamava da atividade: “Nem pesado eu achava. Costumava levar mais as frutas e verduras e não dava nem 20 kg”.

Assim como ele, outras 40 crianças e adolescentes foram afastados da feira e direcionados para o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) que realiza uma intervenção social articulada ao Serviço de Atenção Integral a Famílias (PAIF) e ao Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Família e Indivíduos (PAEFI). No caso do SCFV de São José da Tapera as atividades oferecidas variam entre oficinas de karatê, capoeira, artesanato e música. “É durante a semana, eu vou de 7h30 às 11h20 e aí é bom porque dá tempo de ir para escola”, afirma I.S.S que cursa o oitavo ano na Escola Elizabeth Jacobá Maria Borges. Quando questionado sobre o que ele mais gosta de fazer no local, ele responde: “Amigos! Amizade foi o que eu mais eu fiz”, compartilha o adolescente.

O papel de mãe

Dona Maria Aparecida é mãe de três filhos. O I.S.S é o filho do meio e ainda tem mais dois, um de 8 e outro de 15 anos. Para ela que é dona de casa e beneficiária do programa Bolsa Família, era melhor quando ele ia trabalhar na feira. “Eu preferia que ele fosse para a feira ganhar o dinheirinho dele. Quando chega sábado ele chora no meu pé e tenho que ser muito mãe para dizer que ele não pode”, afirma.

Ela disse que foi abandonada pelo marido e que o dinheiro que ele manda para cuidar dos três filhos é de R$ 100,00. “Meu marido me abandonou, me trocou por outra e eu passo a maior precisão (sic). Eles já são uns rapazinhos e o dinheiro que o pai dá é só R$ 100,00. O que é R$ 100,00?”.

Apesar disso, dona Maria Aparecida gosta de ver o filho frequentando o centro de convivência. Segundo a dona de casa, é melhor eles estarem por lá do que na rua ou na própria casa. “Eu sou mais ele ficar no Serviço várias vezes do que em casa porque só ficam mexendo no celular e na rua só ficam aprendendo o que não presta. Eu prefiro lá que vão aprender alguma coisa que preste do que soltos na rua”, avalia.

Segundo a coordenadora do AEPETI de São José da Tapera, Eliny Melo, a inserção das crianças da feira para o SCFV só conseguiu ser feita com o apoio das assistentes sociais do município. “Fizemos um multirão social com aquelas crianças e adolescentes que passaram o minímo de informações ali na feira. Coletamos os endereços de suas famílias e fomos até suas casas para fazer a visita familiar. Tinham muitos pais com problemas com álcool, muitos outros que queriam que o filho trabalhasse na feira e até funcionários públicos que não viam problema. A gente sofre uma resistência grande, mas faz parte do nosso trabalho”, comenta a coordenadora.

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