Lugar do Cidadão

“Eu vi que ele ia machucar o meu filho do mesmo jeito que me batia”

Por 10 de junho de 2019 julho 16th, 2019 Sem comentários

 

A primeira agressão aconteceu em agosto do ano passado. E. M. de A., 27, apanhou de seu ex-marido dentro de casa. Eles moravam juntos há cinco anos no centro de Marechal Deodoro, cidade vizinha a Maceió. “Do nada, ele me jogou no chão, puxou meus cabelos e me bateu muito no rosto e nas costas. Eu perguntava o que eu tinha feito e ele apenas ficava me xingando de ‘vaca, vagabunda’”. Nessa hora, ela teve certeza que ele ia matá-la ali.

Durante a agressão, o irmão do ex-marido tentou intervir e ele o empurrou dizendo que a conversa era só entre ele e a esposa. Enquanto isso, os filhos assistiam amedrontados a violência sofrida pela mãe.  A jovem diz que a casa ficou destruída. “Quebrou móvel, derrubou as coisas em cima da mesa e quando ele me bateu, atingiu também o rosto do meu filho. No outro dia eu levei o meu filho na escola, com o olho ainda roxo, e eu disse que se perguntassem o que tinha acontecido com ele, eu ia dizer que foi quando o meu marido estava me batendo”, relembra. Ela não registrou nenhuma queixa contra o ex-marido, preferiu ‘deixar pra lá’.

Cerca de cinco meses depois, um dia iria marcar a vida dessa mulher: 8/12/2018. Aparentemente era um sábado como outro qualquer, mas seu ex-companheiro já bebia por três dias seguidos. Por volta das 19h ele chegou em casa e começou a agredi-la novamente. Era a segunda vez que ele batia nela daquela forma. “Ele estava bêbado. Meu filho abriu a geladeira e ele simplesmente bateu na cabeça dele. Quando eu vi meu filho sendo agredido, aí foi o meu limite”, desabafa. Ela disse que começou uma discussão, que iria sair de casa e o ex-marido a expulsou naquele momento mesmo. A jovem apenas se preocupou em em pegar a pasta de documentos dos filhos e sair. Sem família na cidade, ela pediu abrigo na casa do ex-cunhado, que a recebeu para ela não dormir na rua com as crianças.

No dia seguinte, E. M de A. retornou para pegar suas coisas. “Ele ainda estava dormindo da cachaça. Eu entrei, peguei minhas coisas, as dos meninos também, uns brinquedos, e saí. Pedi 50,00 emprestado pro frete e vim para a casa da minha tia aqui na Barra”, relembra.

Suas lágrimas não me convêm

Ela conta essa história sob o sol quente da praia de Barra de São Miguel, litoral sul de Alagoas, sua cidade natal. Logo que retornou, ela conseguiu um trabalho temporário como ajudante de cozinha em uma das barracas da orla. Era alta temporada e E. M de A. trabalhou até o fim do carnaval. Quando saiu, começou a vender queijo coalho assado na praia.

Mãe de um menino de 10 anos, do primeiro casamento, e de uma menina de 5 anos, do casamento com o ex-marido agressor, ela trabalha na praia todos os dias e vem se esforçando para ter uma renda e sustentar a casa. “Tem muito turista por aqui, mas tem gente que não entende quando eu falo queijo coalho. Tem uns chineses mesmo que chegam aqui e eu tenho que mostrar o queijo para eles entenderem o que é”, relata com um sorriso no rosto.

Já em sua nova casa, pagando um aluguel de R$ 300,00 e com os filhos matriculados na escola, o ex-marido veio atrás dela e pediu para voltar. “Ele disse que ia mudar, que não ia mais me bater. E eu disse: ‘suas lágrimas não me convêm’”. Quando questionada sobre o motivo que a deu coragem para deixar de sofrer violência doméstica, ela diz que foi o filho. “Eu vi que ele ia machucar o meu filho do mesmo jeito que ele me batia”.

A jovem continua dizendo que até hoje é um trauma difícil para as crianças superarem. “Nessa segunda vez, ele disse que ia me matar e que ia beber o meu sangue. Hoje, a minha filha com ele é mais feliz morando só comigo e vive dizendo ‘que bom que a gente está na nossa casinha e que ninguém vai mais agredir a gente”. Vítima da violência doméstica, ela conclui dizendo que não tem medo de encarar o mundo, as pessoas e incentiva outras mulheres  a fazerem o mesmo: “Tenham coragem. Se o marido agredir uma vez, saia de casa. Vá para um abrigo. Tome uma atitude logo na primeira vez, não espere a segunda”.

Deixe uma resposta