Lugar do Servidor Publico

“Quando não vimos criança na feira, descobrimos que o caminho estava certo”

Por 28 de maio de 2019 junho 6th, 2019 Sem comentários

 

Coordenar as Ações Estratégicas do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (AEPETI) em São José da Tapera. Essa é a atual missão de Eliny Melo, no cargo há um ano e nove meses. De lá pra cá, quarenta e cinco crianças pararam de “carroçar” na feira livre que ocorre todos os sábados na cidade e passaram a frequentar o Serviço de Convivência do município. “Estávamos entre as cidades que mais possuíam trabalho infantil. E hoje eu sou chamada para falar da realidade de Tapera lá em Maceió. É um motivo de orgulho para a gente”, afirma Eliny.

No final de 2016, os gestores desse município sertanejo – distante 218 km da capital – e de mais quinze cidades alagoanas assinaram um termo de compromisso com o Ministério Público do Trabalho (MPT/AL) com o objetivo de dar um fim à exploração do trabalho de crianças e adolescentes. Segundo dados da Rede Peteca – plataforma que visa a promoção dos direitos da criança e do adolescente e a erradicação do trabalho infantil no país a partir da comunicação – Alagoas possui um número de 30.832 entre ocupados em zonas rurais e urbanas e mais de 50% desses referem-se as áreas de agricultura, pecuária, pesca e aquicultura. Uma estatística que “coincide” com a realidade das feiras livres de Tapera.

 Os carroceiros e seus coletes amarelos

“Eu comecei a pensar o que poderia fazer. Fiquei quatro sábados observando as crianças na feira, vendo o que elas estavam fazendo e amadurecendo as ideias. O ponto de partida foi colocar uma tenda com som perto da feira para ficar dando instruções. Demos o nome de Café com Prosa, relembra a coordenadora. A estratégia era simples: cadastrar os carroceiros adultos para formalizar e valorizar esse trabalho e começar a afastar as crianças daquela função. Começou a dar certo.

Eliny e sua equipe, dois fiscais que fazem o monitoramento da presença de crianças e adolescentes nos dias de feira e que ela denomina de “termômetros”, começaram a entregar coletes amarelos e numerados a cada adulto que se apresentava com CPF, RG e comprovante de residência. A orientação era expressa: para trabalhar na feira, era preciso vestir o colete.

“Sabíamos que o público usava o serviço das crianças e adolescentes porque era mais barato. Era cerca de R$ 2,00 a 2,50 a viagem da ‘carroça’. Além de formalizar os carroceiros, começamos também a dar incentivos, como sorteios de carroças novas para melhorar o trabalho deles. Também trouxemos dois humoristas de Arapiraca que mostravam a importância de usar o colete, assim a gente começava a fidelizar a relação deles com o nosso trabalho do AEPETI.”, comenta Eliny.

Hoje são cerca de cem carroceiros cadastrados. São todos homens com idade média até quarenta anos e em geral beneficiários do Bolsa Família. Utilizam o sábado para ‘carroçar’ e ganhar um dinheiro a mais. Carroceiro cadastrado há pouco tempo, Aldo Posidônio dos Santos, 23 anos, é um homem de poucas palavras. Durante a semana, Aldo trabalha em uma madereira e é aos sábados que ele consegue um dinheiro extra fazendo a ‘carroça’ na feira. “Passo a manhã toda por lá. Chego 5h e fico até o meio-dia. Isso dá em torno de umas trinta viagens e aí consigo juntar uns R$ 150,00 já que cada carroça tem o preço de R$ 5,00”, comenta. E na avaliação do trabalho dos carroceiros na feira ele foi direto: “Ficou mais organizado e agora o povo respeita mais a gente”, concluiu o rapaz.

Bolsa Família, carro de som e a feira sem crianças trabalhando

Em paralelo, Eliny relata que desenvolveu um trabalho diretamente com os feirantes. “As crianças deixaram de ‘carroçar’ e começaram a ajudar diretamente nas bancas das feiras. Aí o Sebrae veio aqui e fez um termo de cooperação direto com os feirantes. Nós temos cerca de 320 por aqui e eles se comprometeram em só utilizar o serviço dos adultos. Caso contrário, iriam perder o ponto na feira”.

Mas era preciso trabalhar também um outro público bastante sensível: os pais das crianças. “Pedi para fazer uma chamada no carro de som dizendo as penalidades caso a gente ainda achasse criança na feira. Eu sabia que pelo Bolsa Família as crianças e adolescentes de até quinze anos que realizavam trabalho infantil deveriam ser retiradas do programa se estivessem nessa situação. Bastou eu falar isso no carro de som na sexta-feira que no sábado não tinha mais nenhuma criança por lá. E quando não vimos crianças na feira, descobrimos que o caminho estava certo”, resgata Eliny sorrindo.

Outra frente de trabalho foi com os próprios servidores da Prefeitura. Eles planejaram mais uma ação, as Rodas de Conversas e passaram a conversar sobre o tema de combate ao trabalho infantil com diretores e gestores de escolas, agentes comunitários de saúde e com a própria rede de assistência social, já que o AEPETI é ligado diretamente a essa pasta.

“Hoje as pessoas reconhecem o trabalho. Sabem onde é a sede – que é na mesma rua da feira -, sabem quem trabalha na equipe e costumo também sempre ir a rádio para falar do assunto. E a minha realização é quando vem um carroceiro se cadastrar porque passou a dar importância e respeito ao nosso trabalho”, avalia.

Do papel para o computador

Recentemente, uma nova fase começa a se desenhar no AEPETI de São José da Tapera graças a uma situação delicada que a equipe vivenciou recentemente. “Foi algo engraçado e angustiante. Eu recebi a notícia que uma moça tinha sido roubada por um carroceiro. Questionei se ele estava com colete e ela disse que sim, mas que não conseguiu ver a numeração. Juntei todos os que estavam naquele dia da feira, disse que isso era ruim para eles e que eles mostrassem o número sempre”, compartilhou.

A partir desse episódio, Eliny destacou a necessidade de ter também a foto dos carroceiros, até para ter uma maior identificação caso outra pessoa pegue o colete no lugar do carroceiro cadastrado. O próximo passo da coordenação é digitalizar as cerca de cem fichas cadastradas e ir aprimorando o sistema do AEPETI no município. “E no final das contas, a moça não tinha sido roubada. O carroceiro que já tinha seguido até a casa dela sem que ela percebesse. Ele estava na porta dela com a feira na carroça. Foi bom para nós que pelo menos serviu para melhorar nossos cadastros”. No aspecto financeiro, Eliny questiona a pouca quantidade de recurso para o AEPETI, mas não deixa de sonhar: “Meu desejo agora é começar a combater o trabalho doméstico e sei que podemos chegar lá”, conclui.

Deixe uma resposta