Lugar do Servidor Publico

“Tem que ter muita paciência e amor pelo que faz. Tem que gostar de gente”

Por 17 de maio de 2019 junho 6th, 2019 Sem comentários

Rusliene Dantas trabalha no serviço público alagoano há 15 anos. Ela viu de perto o crescimento do atendimento no Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF), mais conhecido como Farmex. Paraibana, a farmacêutica escolheu o estado pelo vínculo familiar com uma tia e por acreditar que existia um bom campo profissional. “Eram os anos 2000 e na época tinham muitas oportunidades para quem queria trabalhar com análises clínicas e drogarias também”, relembra.

O Estado abriu concurso para a área e Rusliene se inscreveu. Ficou em 29º lugar, não passou naquele momento. Dois anos depois, foi chamada e assumiu o cargo. Segundo a servidora, o envolvimento com as pessoas fez ela se identificar e se encantar com a efetivação da assistência farmacêutica, agora como política pública de saúde.

De 3 mil para 57 mil atendimentos

O CEAF é a instituição que faz a execução da política pública farmacêutica no estado. Ao todo, são onze regiões de saúde para além da capital Maceió. As outras unidades descentralizadas estão localizadas em sete municípios: Arapiraca, União dos Palmares, São Miguel dos Campos, Penedo, Palmeira dos Índios, Santana do Ipanema e Delmiro Gouveia.

Para organizar toda essa demanda, é essencial o cadastro dos pacientes e atualização frequente, já que todo dia chegam novas demandas. “Quando eu entrei, a instituição era informatizada com o sistema operacional DOS, aquele em que a tela era toda preta. Um colega de setor começou a desenvolver uma versão para o Windows e pouco tempo depois o Ministério da Saúde ofereceu outro modelo de forma gratuita. Tivemos muitas mudanças, enfrentamos desafios de ficar recadastrando a cada ‘atualização’, mas era um caminho sem volta. Em 2011 finalmente foi incorporado o Hórus, sistema utilizado até hoje”, comenta Rusliene. Nesse último, o grupo já tinha desenvolvido a experiência de transição e, assim, foram fazendo gradualmente, começando por novos pacientes, seguindo para as patologias que mais concentravam pessoas até a conclusão, tudo de forma muito gradual.

Os números do histórico revelam que em 2004, 3 mil alagoanos recebiam assistência farmacêutica. Agora, em 2019, são cerca de 57 mil alagoanos, sendo 37 mil concentrados apenas em Maceió. “O que mais avançou ao longo desses anos foi o acesso. Esse eu considero o ponto mais positivo e sem dúvidas a descentralização facilitou principalmente a vida daquele morador da zona rural”, avalia.

Outro ponto que a servidora considera relevante foi a incorporação de novos medicamentos. Ela lembra que no início era um número muito restrito para atender a diversidade de patologias. Doenças crônicas como a esclerose múltipla, síndrome de hunter e outras foram sendo incorporadas no caminho. “A variedade de doenças e, consequentemente, de medicamentos para tratamento me faz ter a clareza de que o CEAF é um dos poucos setores da saúde pública que atende da classe A até a classe E já que todos são atendidos por aqui, desde um remédio hormonal mais complexo a um colírio mais simples. Nosso público também varia de 0 a 108 anos aqui Maceió”, analisa a servidora.

Por dentro do CEAF

A orientação para o paciente que chega pela primeira vez é a mesma: reunir a receita prescrita pelo seu médico, os formulários do Laudo de Solicitação, Avaliação e Autorização de Medicamento (LME), a lista dos exames requisitados e os documentos pessoais. Após essa entrega, é feito o cadastro no Hórus, o Sistema Nacional de Gestão Farmacêutica. Em seguida, uma equipe multidisciplinar avalia o processo para dar parecer favorável ou desfavorável sobre a aquisição do medicamento. “É preciso muito ‘tato’ na hora de conversar com o paciente. Fizemos uma experiência certa vez de um projeto para assistência farmacêutica. Eu e uma colega passamos seis meses informando as pessoas sobre como usar o medicamento, de qual programa ele originava, quais os efeitos, mas não tivemos ‘perna’ para continuar. Espero que no futuro a gente consiga retomar a ideia”, avalia.

Com o parecer favorável, segue a etapa de aquisição de medicamentos e que envolve três diferentes fontes orçamentárias, organizadas em listas. A primeira refere-se àqueles adquiridos pelo Governo Federal, através do Ministério da Saúde. Esses geralmente são relacionados às doenças mais raras e, consequentemente, são os mais caros. A segunda lista é dos medicamentos adquiridos pelo Governo de Alagoas através do repasse do Fundo Nacional de Saúde e terceira lista é também estadual, mas com recursos do orçamento próprio e que geralmente se referem as doenças mais comuns. “Os medicamentos mais demandados são para asma, doenças psiquiátricas, doenças renais e, mais recentemente, o glaucoma”, informa a servidora.

Já em termos de pessoal, existem cinco servidores concursados trabalhando atualmente no CEAF. Os demais da equipe são funcionários contratados. “Aprendemos a nos adaptar. Nós capacitamos, compartilhamos as informações, mas é tudo muito dinâmico e a rotatividade também termina sendo grande”. Para Rusliene, a digitalização dos processos poderia auxiliar bastante não só na agilidade, mas também nessa alocação dos servidores. “As pastas parecem que tem vida própria. Se fossem digitalizadas, ganharíamos o tempo desses funcionários que poderiam estar em outras atribuições para além da procura dos processos físicos”, avalia.

Como melhorias, a servidora sugere a ampliação do atendimento telefônico para informar ao paciente o status do medicamento e evitar que muitas pessoas se desloquem ao CEAF. “Temos duas pessoas atribuídas de ligar para os pacientes, mas é muito pouco. Quando o medicamento é menor, como foi o caso recente de remédio para artrite, nós conseguimos ligar para os pacientes beneficiados e informar que eles poderiam vir buscar”. Outra alternativa apontada é o serviço de entrega em domicílio que atende aproximadamente 1.000 pessoas em Maceió, com prioridade para aqueles acima dos 80 anos e que possuem mais dificuldade em se locomover. Apenas em Maceió, existem 2.347 registros de pessoas acima dessa idade.

“Tem que gostar de gente”

Com a voz mansa e sorriso no rosto, Rusliene disse que desenvolveu um ‘jeitinho de interagir’ com as pessoas. “Aqui a gente apaga muito incêndio. Eu entendo que as pessoas precisam do medicamento e, por isso, a gente tem que ter muita paciência, criatividade e amor pelo que faz. Tem que gostar de gente.”, compartilha. Por outro lado, ela comenta também o aprendizado e as relações que que desenvolveu com os pacientes nesses anos de serviço público: “Tem gente que faz um elogio, que chega aqui com manteiga e queijo de presente, bolo feito pela mãe. Isso é recompensador. A gente saber que fez parte do processo de acesso a um remédio que melhora qualidade de vida de alguém é muito legal”, conclui a servidora.

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