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“Trabalhar com assistência técnica e extensão rural é pensar no desenvolvimento do agricultor familiar”

Por 22 de julho de 2019 julho 30th, 2019 Sem comentários

 

Nascido em Santa Luzia do Norte, região metropolitana de Maceió, Moisés Leandro da Silva sempre teve identificação com a vida rural. Com uma experiência de 25 anos como extensionista rural, ele se formou em Técnico de Agropecurária em 1983, ainda na antiga Escola Agrotécnica Federal de Satuba, atual Instituto Federal de Alagoas. Funcionário do governo de Alagoas há 8 anos, Moisés já trabalhou na assessoria do desenvolvimento de cooperativas, na prestação de serviço de assistência técnica e também com cooperativas de créditos.

“Trabalhei por um tempo fora do estado e retornei há 17 anos. Um dos projetos que coordenei ao longo desses anos foi a criação das cooperativas de crédito em Alagoas, o que permitiu o desenvolvimento local. Hoje temos cooperativas em Arapiraca, Pão de Açúcar e Igaci”, afirma o técnico. Uma cooperativa de crédito é uma instituição financeira formada pela associação de pessoas para prestar serviços financeiros exclusivamente aos seus associados, sendo donos e usuários ao mesmo tempo.

AL: 90 mil a 100 mil famílias de agricultores familiares

Atualmente, Moisés é o Supervisor Regional da Grande Mata Alagoana, área que envolve 32 municípios. Ele trabalha na coordenação da Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) que se materializa através de oficinas, seminários, assistência de manejos, etc. Essa é uma política pública que envolve diretamente o agricultor familiar em busca de melhorar sua qualidade de vida e permitir o desenvolvimento.

Para atender os 32 municípios, o supervisor conta com uma equipe de 11 profissionais, entre zootecnistas, engenheiros agrônomos, assistentes sociais e técnicos em agropecuária. “Nós não conseguimos dar conta de toda a região, por isso trabalhamos de duas formas: a primeira, diretamente com a equipe técnica em campo atendendo os agricultores familiares e assim conseguimos chegar em 16 cidades; e a segunda, através de termos de cooperação técnica com os municípios onde eles que chegam até os agricultores”, compartilha.

O trabalho do agricultor familiar é regido pela Política Nacional da Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais (Lei 11.326 de 24 de julho de 2006). Entre os requisitos, não pode deter uma área maior do que 4 módulos fiscais; deve utilizar predominantemente a mão-de-obra da própria família e deve ter um percentual mínimo da renda familiar originada dessas atividades econômicas.

“Aqui em Alagoas temos cerca de 95 mil a 100 mil famílias tipificadas nessa lei. Não estou falando em números de pessoas, são de famílias. É muita gente que sobrevive dessa forma. E na regional da Grande Mata Alagoana estão concentradas 30 a 40% dessas famílias”, informa Moisés. Um dos grandes desafios, segundo o técnico em agropecuária, é que o trabalho da ATER envolve muitos aspectos além do técnico.

“É preciso que a gente entenda o universo do agricultor familiar em seus aspectos econômico, social, ambiental e cultural. No nosso caso, por exemplo, apesar de toda a crise do setor de cana de açúcar, ela possui uma cadeia produtiva muito bem estruturada. Então muitos agricultores, quando encontram um desafio novo na produção, terminam voltando para a cana porque já é uma cultura conhecida. Então a gente tem que entender esse contexto e buscar a melhor forma para trabalhar”. Para ele, fica a tentativa pelo Estado em apresentar novas alternativas de viabilidade.

Em contrapartida, o que não se pode negar é a tendência mundial da agroecologia, que é a possibilidade de ter uma garantia na qualidade na produção, mas com produtos, a princípio, em uma escala menor. “Ainda que pese a resistência, a agroecologia é uma tendência. O alimento orgânico é justamente o resultado dessa produção agroecológica certificada. Não cabe gostar ou não. Ela envolve o uso de insumos não importados, ou seja, tem o foco de utilizar tudo daquele mesmo ambiente, como as sementes. A semente crioula é justamente isso, uma semente que já foi geneticamente testada e aprovada naquele ecossistema local”. É como se usasse a riqueza do próprio local para se multiplicar e pensar toda a produção pela preservação dos recursos naturais

“Não conseguimos competir com orçamentos da saúde ou da educação. O Estado aqui precisa ser o indutor”

Para Moisés, uma dificuldade para a boa implementação da assistência técnica e extensão rural é a clareza na divisão das competências e a falta de integração entre os governos federais, estaduais e municipais. “Nossa realidade orçamentária é limitada. Não vamos comparar com áreas da saúde e educação, mas um dos objetivos da EMATER é reunir todos os dados da agricultura familiar para medir o impacto desse setor na economia e desenvolvimento de Alagoas”. Ele ainda complementa que os gestores municipais precisam compreender as metodologias de ATER. “A questão das compras governamentais como, por exemplo, nos produtos da agricultura familiar para a merenda escolar. Nem sempre os gestores municipais são claros nos editais e muitos produtores ficam fora desse processo. Vale lembrar que a lei exige 30% de valor mínimo, mas os gestores poderiam comprar 100% da merenda vinda da agricultura familiar”, comenta.

Assim como relatado pela Lucilene, a agricultora familiar que entrevistamos aqui, o problema de falta de engajamento da juventude é novamente presente. O técnico defende que é preciso pensar a continuidade dos processos sucessórios da agricultura familiar, ou seja, pensar na política pública a médio e longo prazo com formas de motivar os jovens a empreenderem com a agricultura familiar e não uma forma impositiva de mantê-los no campo. “O estado precisa ser o indutor. Querer convencer os jovens apenas a se perpetuarem por uma questão de garantia alimentar é podar muitos sonhos. Por que não motivar os jovens a empreender com essas compras governamentais? Em uma estimativa, arrisco dizer que chegaria a um valor de R$ 20mil/ano”, avalia.

Com essa visão muito além da técnica agropecuária, Moisés acredita que a agricultura familiar pode crescer em Alagoas. “Em 2018 foi instituída a Política Estadual de Agroecologia e Produção Orgânica. Agora é preciso que essa lei seja implementada e melhore a vida desses alagoanos. Daquelas 100 mil famílias, 22 mil delas, segundo o CadÚnico, ainda sobrevivem do Bolsa Família e a agroecologia pode avançar nessa realidade”, conclui.

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